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sábado, janeiro 12, 2013

TÃO LINDA QUANTO LONGA




EM CAMINHO DO SERTÃO

( Asterio de Campos)

BARDO ou Poeta, cujas rimas
são da poesia o tesouro,
que cantas em rimas de ouro
a tua consagração,
fecha os cristais dos ouvidos,
não ouças, por caridade,
a virgem rusticidade
desta viola do sertão.

Esta linguagem bravia,
como aquela natureza,
não contém essa beleza
paciente do teu buril!
São os versos deste livro
como as águas das cascatas
e o vento, açoitando as matas
das florestas do Brasil.

Tange as cordas da tua lira
nos seus dulcíssimos trenos!
Entoa canções à Vênus
no teu rítmo lapidar,
mas deixa-me a liberdade
de descantar n’uma prima,
sem arte, sem voz, sem rima,
uma cabocla a sambar.

Quisera ser ignorante,
como um cantor sertanejo!...
Era esse o meu desejo!...
Não ter nenhuma instrução,
mas ter o dom do improviso,
para dizer, de momento,
as dores do pensamento
e as mágoas do coração.

Excelso, divino poeta,
que levas um mês inteiro,
beliscando no tinteiro,
para um soneto compor,
deixa um momento a Avenida,
vai lá nos matos sombrios
ouvir esses desafios
de um cabra improvisador.

Não vais sentir a rijeza
de eretos alexandrinos!
Vais ouvir os dons divinos,
que Deus concede a um mortal!
Não te importes com a sintaxe,
que isso é coisa sem valia!
Sorve somente a poesia,
que é um licor celestial.

Basta de Pan, de Netuno!
Deixa a Grécia! Deixa a Itália!...
Deixa a fonte de Castália,
que, de há muito, já secou!
Vai beber as águas frescas
de uma cacimba, que é tua,
onde, à noite, a nívea lua
seus versos brancos deixou.

Musset, D’Annunzio e Leconte,
Byron, Hugo, Campoamor,
já te imploram, por favor,
que os deixes lá descansar.
Demos um pouco de tréguas
a tanta coisa estrangeira,
que esta terra brasileira
tem muito e muito que dar.

Eu bem sei que esses poemas
nunca serão recitados
nos salões opulentados,
por um moço de altivez.
Seria um crime ultrajante
dizer estas frioleiras
nessas rodas brasileiras,
onde se diz em francês.

Mas, que importa? Nada aspiro
neste país, nesta terra,
que tantos bardos encerra,
e tanto filho abandona!
Eles têm a lira ebúrnea!
São Orfeus!... São divindades!
E eu só sei cantar saudades
nesta inefável sanfona.

Se não traduzo, a contento,
as queixas lá da viola,
uma coisa me consola: —
é cantar tudo o que ouvi!
E embora vilipendiado
com inofensível fereza,
pertencer à natureza
desta terra em que nasci.

Nada achareis neste livro,
Narcisos afrancezados!
Vós estais acostumados
com essas liras de além mar!
Este instrumento que eu trago
aqui, por cima do peito,
é tão bárbaro e imperfeito,
que só eu posso escutar.

Nesta floresta de versos,
nesta espessa mataria,
não se escuta a melodia
de um CHANTECLER de Rostand!
No sertão destes poemas,
não canta um galo estrangeiro,
mas um galo brasileiro,
saudando a luz da manhã.

Quereis saber de que cor
são estes meus pobres trenos?
São da cor das folhas verdes,
pisadas pelos serenos!

Nos dedos rudes que escrevem
estas cantigas bucólicas,
não reluzem os fulgores
de anéis de pedras simbólicas.
Qual seria o anel do poeta,
se o poeta fosse um doutor?
Uma Saudade brilhando
na cravação de uma Dor!

E vós, gentis senhoritas,
que falais o italiano,
como o francês soberano,
as línguas em que cantais,
cuidado com a língua bárbara
desses sertões lá do Norte,
trescalando o cheiro forte
dos gigantes vegetais!

Fechai meu livro, senhoras!
Com o vestido decotado,
com o cabelo penteado,
e esses finos sapatinhos,
voltareis arrependidas,
trazendo os vossos sapatos
cheirando a folha dos matos,
e as vestes cheias de espinhos.

Nada, pois, de sacrifícios,
sem colher um resultado!
Cuidado! Muito cuidado
com os acúleos... do espinheiro!
Em vez de um terno “je t’aime;”
de um moço guapo e bonito,
ouvireis somente o grito
da paixão de um marroeiro.

Nada, pois, de sacrifícios!
Nas margens de uma Avenida,
não se vê “Terra caída”,
coisa que não tem valor!
Não crescem árvores rudes
que depois de decepadas,
nós já vimos revoltadas
contra um fero “lenhador”!

Fechai meu livro, Senhoras!
Certo, eu sei, não interessa
a história de uma “Promessa”,
uma flor do coração!
Um meigo e simples transumpto
das saudades sertanejas
das noites de São João.

Que há n’um “passador de gado”,
(direis vós) um homem rude,
com sua bronca virtude,
que vem ver a Capital,
e volta vociferando,
comparando esta cidade
com a rudeza e a soledade
da sua terra natal?!

Não! Lêde-a com dor, com magua,
essa história, essa romança
de um homem feito criança,
esse “Quinca Micuá”,
alma pura, nobre e santa,
como uma flor redolente,
que, talvez, tão inocente,
não exista igual por cá.

Não reciteis, senhoritas,
o poema religioso
de um “cangaceiro” extremoso,
o matador das estradas,
porque vereis, sem surpresa,
esses moços que escutarem,
as gargantas rebentarem
em tremendas gargalhadas!!

Vós, que lágrimas verteis,
lendo a insulsa serenata
de um poeta nefilibata,
um poetastro verlainal,
admirai, na “vaquejada”,
como um rude boiadeiro
respeita o seu companheiro,
mesmo sendo um animal!

.Com prazer ouço uma orquestra
no multicor dos sonidos
e, logo após, os carpidos
da viola, cantando a dor,
assim como, lendo o Dante,
logo depois ouviria
um canto dessa poesia,
que tem cheiro de verdor!

Tenho lido, desde Homero,
tudo o que se tem escrito
em versos de ouro e granito,
de impecável perfeição, mas,
(talvez seja ignorância),
ás vezes fico encantado
com um verso imetrificado
de um Manoel do Riachão!!!(*)

Formosos, doces Narcisos,
que andais vestidos de Imprensa,
cheios de orgulho, a doença
dos “Grandes”, dos “Imortais”,
que de cinco em cinco dias
tendes o rosto gravado
sob um soneto plagiado,
nas colunas dos jornais!...

Vates, Poetas principescos,
vestidos de seda e de ouro,
a minha veste é de couro,
são rudes os versos meus!
Mas só reconheço um Príncipe
da Universal Monarquia,
Rei e Papa da Poesia,
cujo nome é — Deus!

Só Deus!


sexta-feira, janeiro 11, 2013

UM LINDO POEMA




A Flor do Maracujá
Composição: Catulo da Paixão Cearense 

Encontrando-me com um sertanejo,
Perto de um pé de maracujá,
Eu lhe perguntei:
Diga-me caro sertanejo,
Porque razão nasce branca e roxa,
A flor do maracujá?
Ah, pois então eu lhi conto,
A estória que ouvi contá,
A razão pro que nasci branca i roxa,
A frô do maracujá.
Maracujá já foi branco,
Eu posso inté lhe ajurá,
Mais branco qui caridadi,
Mais brando do que o luá.
Quando a frô brotava nele,
Lá pros cunfim do sertão,
Maracujá parecia,
Um ninho de argodão.
Mais um dia, há muito tempo,
Num meis que inté num mi alembro,
Si foi maio, si foi junho,
Si foi janeiro ou dezembro.
Nosso sinhô Jesus Cristo,
Foi condenado a morrê,
Numa cruis crucificado,
Longe daqui como o quê,
Pregaro cristo a martelo,
E ao vê tamanha crueza,
A natureza inteirinha,
Pois-se a chorá di tristeza.
Chorava us campu,
As foia, as ribeira,
Sabiá tamém chorava,
Nos gaio da laranjera,
E havia junto da cruis,
Um pé de maracujá,
Carregadinho de frô,
Aos pé de nosso sinhô.
I o sangue de Jesus Cristo,
Sangui pisado de dô,
Nus pé du maracujá,
Tingia todas as frô,
Eis aqui seu moço,
A estória que eu vi contá,
A razão proque nasce branca i roxa,
A frô do maracujá

segunda-feira, janeiro 07, 2013

NÃO É TÃO DIFICIL.


c-bernardo2012@bol.com.br
Casa que falta pão todos brigam, ninguém tem razão. Mais ou menos isso está se dando no Amapá, por falta de farinha de mandioca no mercado. O governador Camilo Capiberibe disse a esse propósito que o Amapá estaria recorrendo a variedade de curtíssimo ciclo, 6 (seis) meses,como primeira solução. É um contraponto à literatura técnica disponível que mantém na classificação as variedades, precoce (ciclo de 10 a 14 meses); semiprecoce (ciclo 14ª 16 meses) e tardio (mais de 18 meses).
Ontem, na Radio 101, jornalistas debatiam o assunto à luz de toneladas de farinha anunciadas pela Secretaria de Desenvolvimento Rural. Uma espécie de “agora vai”, independente da complexidade do assunto.
Grosso modo, o Amapá tem ótimo potencial para a produção de mandioca: boa oferta de solos areno-argilosos; precipitação pluviométrica satisfatória; luz solar incidente; bons intervalos de temperatura anual; mão de obra ainda disponível; etc.
Contudo, ainda se trabalha no Amapá com produtividade inferior a 12 toneladas por hectare, quando o Brasil lida com números superiores a 27 toneladas por hectare, já conhece produtividade superior a 50 toneladas por hectare e, quer chegar, já, a 80 toneladas por hectare.
No geral (grosso modo) os passos para se atingir essas metas são relativamente simples: boas variedades, preparo de solo, época de plantio adequada, espaçamento entre plantas no hectare.
O que se quer é chegar a 5 kg de raiz por planta, 70 centímetros entre plantas, 90 centímetros entre linhas e, 16 mil covas/plantas por hectare. Isso o Amapá também pode ousar.
Mas não com a simplicidade com que os gestores expõem o assunto. Cultivo de mandioca e imagem de agricultores empobrecidos tem sugerido simplicidade demais, descuidado demais para com a “industria” da mandioca no Amapá. É preciso cercar essa importante atividade agroeconômica com bem mais cuidados técnicos, na verdade fatores de produção que se referem minimamente a: preparo de solos, ramos/semente para o plantio, espaçamento, variedades adequadas, competição com pragas, doenças e ervas daninhas. E até, poda.
Paralelamente tem-se que ir além para de fato atribuir a devida importância ao uso de maquinas, credito direto ao agricultor, criação do banco estadual de germoplasma (com  certificação de ramos), criação de um programa estadual de adubação, etc.
O sistema de produção da mandioca reclama muita atenção para a relação mandioca/farinha, que anda ao redor de 30% (mil kg/mandioca para 300 kg/farinha), impondo-se maior aproveitamento econômico de todos os outros subprodutos da mandioca. Isso é essencial para aumentar a relação custo/beneficio a favor do produtor.
Pesquisas mostram que o consumo médio de farinha no Amapá se estabiliza ao redor de 32 kg por habitante por ano. Parece pouco, mas a partir desse numero é possível estabelecer uma boa política de produção de mandioca para todo o Amapá. É disponível no estado ótimo contingente técnico, competente e suficiente para projetar o estado numa realidade menos dura: não produzir farinha suficiente.        

quarta-feira, janeiro 02, 2013

MEDO DEMOCRÁTICO



Dados estatísticos são degraus seguros do pódio de onde falar sobre quaisquer assuntos. Se os tivesse em mãos poderia listar a ranquear os produtos mais consumidos pela sociedade brasileira na virada do ano 2012/13 – pelo menos os dez mais.
Com o recurso da margem de erro com três pontos para cima e para baixo me encorajo a um palpite: peru, chester, pernil de porco, presentes, vinhos, cerveja, champanhe, refrigerantes, fogos de artifício, viagens, telefonemas.
Alem disso, não como produto, mas marca do brasileiro ainda há o medo a considerar. Pode parecer estranho que o diga, mas o medo está no brasileiro como um “produto” de consumo de primeira necessidade, especialmente em fim de ano.
Aliás, nem tão estranho assim, pois uma pesquisa recente disse que o maior anseio da população é a segurança publica. Portanto, esconder-se para denunciar tem parecido ao brasileiro uma obrigação constitucional, em que pese abrigue-se no direito a preservação da imagem.
O que se manifesta e certamente inquieta é mesmo o medo que se tem que ter no caso de denuncia – qualquer denuncia. A televisão é palco principal dessa manifestação que já devia ter causado maior indignação na população.
É diante da televisão que melhor trato tem tido o medo de denunciar, chamam a isso “cuidado” com o denunciante. Tarja preta, nuvem, escurecimento de ambiente, deformação de voz e tantos outros recursos técnicos são usados para “proteger” quem denuncia a violência policial, a professora ou professor, diretor ou diretora de escola, autoridades, o estado, a igreja, o chefe, o colega de trabalho, o bandido comum, o segurança da boite, do banco, do supermercado, do shopping...
Na faz muito que uma estudante bem criança ainda criou um site na rede social mundial para denunciar carências da sua escola. Foi prontamente reprimida e castigada por isso.
Seria esse o clímax que almejamos atingir com a nossa democracia custosamente restabelecida? Note-se que não estamos falando de delação premiada, nem de falsa denuncia, calunia, ofensa gratuita.
Toda vez que vejo uma mascara qualquer protegendo, por exemplo, a imagem de um professor denunciado atraso ou desvio de salário, o procedimento violento de alunos e alunas, fico achando que batemos no fundo do poço. Pior impressão causa ver um médico assim protegido falando de carências hospitalares que interferem no desempenho de suas funções profissionais. Até para denunciar malandragem de menor delinquente o adulto se “protege” dessa maneira.
Pode ser que noventa e nove por cento dos brasileiros não pensem como eu, que expliquem essa atitude à luz da democracia., pode ser. Mas, duvido um pouco que compreendam bem esse medo democrático.