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quarta-feira, outubro 15, 2014

CONTOS DE CESAR BERNARDO DE SOUZA 3

CALCINHA FURADA
Autor: César Bernardo

A ansiedade era o único ponto em comum entre Gonzaga e Cristal, um sentimento embaraçoso que ambos tentavam administrar horas antes do início da reunião mensal ordinária que se realizaria no Salão Oval da Cooperativa Central dos Produtores de Leite do Vale do Caiapó. Na manhã daquele dia se definiria a permanência ou não de Gonzaga no posto de direção que ocupava na organização e se Cristal conseguiria o emprego tão esperado e necessário, na Divisão Especial de Produtos Dietéticos.
Por conta dessa tão grande ansiedade, ambos passaram acordados uma noite
nervosa, calorenta o suficiente para fazer-lhes subir a adrenalina para muito
além do suportável. Como se estivessem comandados pelos impulsos eletrônicos de um controle remoto, cada qual buscou ruas para caminhar sem rumos definidos. Cansados das caminhadas, foram se refestelar na janela dos seus apartamentos querendo espiar a madrugada chegar com algum bom sentimento novo e findar com a ansiedade que já os mergulhava numa espécie de solidão compartilhada.
Cristal não tinha uma janela aberta para os poucos encantos da pequena cidade. Seus olhos, como que tentando escapar do vento frio que descia da montanha, varrendo para a sarjeta papeis miúdos e folhas secas que queriam atapetar toda superfície da rua, só podiam ir até as paredes descascadas das velhas carcaças dos prédios em frente. A rua das Escravas, comprida e estreita, morta nas madrugadas, parecia mover-se debaixo dos pés.
Debruçada devagar sobre o batente largo da janela de duas folhas, as pernas já adormecidas ao embalo do seu silêncio mais profundo, Cristal deixava repassar em sua mente o filme em preto e branco da grande tragédia da sua longa vida medida em exatos vinte e seis anos, quatro meses, dois dias e mais as seis horas que a consumiam daquela maneira desde os primeiros minutos daquele dia.
Muitas vezes - e poucas horas entregues às lembranças, ela reviu as pernas macérrimas que um dia se desnudaram bruscamente diante dela, dando forma a uma das mais violentas e bestiais atitudes que um homem é capaz de praticar contra uma mulher. Ela que, atraída por uma possibilidade de empregar-se, terminou estuprada e manchada pela bestialidade humana.
Depois de tanto tempo, ainda sem entender direito como se viu encurralada entre a surpresa e a barbaridade, não conhecia uma forma de perdão para aquele indivíduo e nem sabia de onde tirara tanta força para suportar a vida até ali.
Por causa da dor e da vergonha, Cristal gravou no fundo de sua memória a imagem das pernas secas e do par de botas com todos aqueles detalhes que bordavam as laterais dos canos altos, até quase aos joelhos. Dali em diante, dominada pela impotência, decidiu que teria a vingança como a única meta da sua vida e a tragédia como o seu maior segredo.
Gonzaga, como que querendo carícias da brisa matutina, abriu de vez as duas folhas da janela grande debruçando-se sobre os seus remorsos mais fortes. O que lhe vinha à mente com mais força, desde há muito tempo, era a imagem da calcinha que lhe ficara como testemunho do gozo bestial que conseguira num dia distante, quando subjugou cruelmente uma jovem mulher que tanta excitação lhe causara.
Lembrava-se bem de uma calcinha marrom de bordas brancas, com um orifício centro frontal grande o suficiente para deixar à vista boa parte da região púbica vaginal, como ele jamais tinha visto, razão pela qual a trazia consigo depois de tanto tempo. Suas lembranças inconfessáveis misturavam-se com a certeza da impunidade. O anonimato em que se julgava convenientemente mergulhado fazia-o pensar que tudo corria a favor dos seus planos de poder na CCPLVC.
Chegou, finalmente, o momento da reunião tão esperada. Na distribuição das pessoas em seus assentos, o acaso colocou Gonzaga e Cristal frente a frente, separados pela descomunal largura da mesa oval que dava nome ao salão retangular. Não sabiam exatamente o que um significava para o outro.
Cristal mostrava-se mais contida, estava informada de que a reunião seria longa, se estenderia muito em razão dos discursos que se sucederiam a partir do Secretário Geral até o Presidente, estando entre os quais seis vice-primeiros-presidentes e três subdiretores que, ainda bem, teriam direito a um máximo de três minutos de pronunciamento, sem réplica.
Quanto a Gonzaga, parecia tratar-se de uma pedra. Nada se poderia perceber ocorrendo em seu íntimo. Para ele seria mais uma reunião de rotina que viria consolidar ainda mais a posição de mando que ocupava na empresa há mais de seis anos. O futuro da hora seguinte não lhe deu nenhum aviso.
Num dado momento, reunião em andamento, foi ao chão a folha de pauta através da qual Cristal acompanhava os acontecimentos com a devida atenção.
Discretamente afastou um pouco a cadeira que ocupava e abaixou-se devagar para recolher o papel que lhe caíra quase ao pé. Foi quando, atraídos pelo destino implacável, seus olhos foram pousar direto nas botas de couro bordadas nos canos altos que calçavam os pés e escondiam as pernas secas do sujeito em frente, do outro lado da mesa oval. Teve a certeza de ter encontrado o que buscava: seu algoz. Não tremeu um só músculo do corpo e nem lhe traiu qualquer nervo. Apenas deixou que as lembranças amargas que trazia da vida dominassem por mais um segundo, cobrando-lhe o compromisso que tinha com a vingança. Ao mesmo tempo que via as botas e recolhia o papel do chão, veio-lhe a decisão de que a sua vingança não se adiaria mais um minuto sequer. Retomou a posição no assento e esperou.
Gonzaga, sem o aviso dos minutos seguintes, também foi ao chão por um motivo qualquer, com um gesto passou imperceptível e sem a mínima importância para Cristal. Abaixado, avistou em frente o par de pernas abertas mostrando ao fundo, lá no fundo, boa parte da região púbica vaginal através do orifício central de uma calcinha marrom de bordas brancas, exatamente igual à que de uns anos para cá levava no bolso e na consciência. Não se enervou nem tremeu qualquer músculo do seu corpo esquelético; apenas excitou-se incontrolavelmente à vista daquelas pernas da mulher que estavam em seu caminho pela segunda vez em busca de emprego.
Recomposto à mesa, deixou seu olhar cruzar com o de Cristal, a dona da calcinha furada. Corria a língua de um canto a outro da boca lambendo os lábios com a intenção de ser obsceno. Cristal recebeu a "carícia" com fingido prazer enquanto fazia a sua arma passar do interior da bolsa para a mão esquerda. Não deixou que seu olhar passasse a Gonzaga o último aviso.
Sob a mesa, Cristal cuidou da mira por muito tempo, quase imóvel. Gastou nisso quase quinze segundos, queria ter a certeza de que quando atirasse colocaria a bala bem entre os dois testículos, sem no entanto desejar que o infame morresse de imediato. Também não queria que ele perdesse a fala por causa da dor que lhe adviria com o furor da bala calibre 38, reservada a ele desde o dia do estupro. No seu entender Gonzaga era uma besta em pele humana sem qualquer merecimento e que, portanto, tinha que uivar de dor quando a força total da sua vingança o atingisse da forma planejada. Quanto mais gritasse mais diminuiria nas entranhas de Cristal o sangramento, a vergonha e o nojo.
Então, assustador, ecoou o tiro seco e certeiro, tanto mais porque apanhou ereto o pênis criminoso, desejoso de mais sevícias hediondas. Enquanto durou a eternidade dos dois ou três primeiros segundos que se seguiram, Gonzaga pareceu apenas assustado como os demais presentes. Não percebera ainda o dreno aberto até o reto e o sangue que lhe empapava as calças à altura do quadril.
Mesmo dominado pelo espanto e pela dor lancinante, Gonzaga ainda viveu os segundos suficientes para perceber que o projétil lhe destruíra quase todo o pênis, dilacerara inteiramente os dois testículos e seguira arruinando uma infinidade de delicados vasos sangüíneos, nervos e músculos, de forma irremediável. Certo de que chegava ao fim golpeado pela mão pesada da vingança implacável que lhe oferecia a um só tempo realidade e dor insuportáveis, aí uivou como a besta que era, repetiu o uivo mas não se mexeu mais, nem os olhos nem os dedos. Foi tombando devagar até bater no colo da morte.
- Essa desgraçada matou a nossa surpresa, ela sabia que o Dr. Gonzaga seria escolhido o novo presidente da Cooperativa Central dos Produtores de Leite do Vale do Caiapó - apontou-a berrando o descontrolado presidente que saía.
-Ela, esta maldita, atirou de propósito no piru dele. Infame, no piru dele não devia - acorreu aos berros um tal vice-presidente, apossando-se da mesma arma, com que disparou uma bala certeira na cabeça de Cristal.
Depois de se aproximar o máximo possível do que sobrou da face da morta,
ainda brandindo a arma, ele esclareceu:
- Ele era o meu homem, sua vaca.
Quando tudo voltou ao controle dos menos exaltados, foram encontradas as duas calcinhas, uma no bolso do Gonzaga bem perto do que sobrou do pênis e outra no corpo de Cristal, deixando escapar pelo orifício estranho uma mecha de pentelhos muito negros. Aí, as explicações já não eram mais necessárias: foram crimes passionais. 




segunda-feira, setembro 22, 2014

CRISE NO COMBATE AO CÂNCER

25 de agosto de 2014 

Luiz Antonio Santini

O GLOBO de 21 de agosto, no editorial "Falhas de gestão na crise da saúde pública", afirma que "é impossível prestar um atendimento 'minimamente razoável' dentro das normas burocráticas e esclerosadas que regem o funcionalismo público". Esta afirmação, com a qual concordamos inteiramente, é a base de todas as tentativas que o Inca vem empreendendo para equacionar a situação da instituição.
Criado em 1937, o Inca é responsável pela prevenção e controle de câncer no país, presta serviços oncológicos no âmbito do SUS e tem, desde 1984, atribuições de gerenciamento das políticas nacionais de câncer. Em 1990, a Lei 8.080, ao criar o SUS, define suas ações como referencial de prestação de serviços, formação de recursos humanos e para transferência de tecnologia. Essas competências foram ratificadas por sucessivos decretos e portarias.
Ao longo dos últimos 22 anos, a parceria com a Fundação Ary Frauzino para Pesquisa e Controle do Câncer (FAF), uma entidade filantrópica de direito privado sem fins lucrativos, possibilitou criação de inúmeros programas nacionais voltados à expansão da assistência oncológica no país, ao controle do tabagismo e dos cânceres de colo de útero e mama, à melhoria da qualidade da radioterapia e da mamografia, além da elaboração de políticas específicas para o controle do câncer nos estados e municípios. Além disso, transformou o Inca em coordenador do mais importante tratado internacional de saúde pública, a Convenção Quadro para o Controle do Tabaco, e possibilitou ao Brasil ser detentor do terceiro maior banco de doadores de medula óssea do mundo.
Todas essas atividades agregaram um repositório inestimável de conhecimento especializado aos profissionais em atividade no Inca, possibilitando sua reconhecida excelência na assistência oncológica. Permitiram também a geração de competências para desenvolver e monitorar políticas públicas específicas, formar profissionais especializados para assistência, pesquisa e ensino e o surgimento de inúmeras inovações nas ações de controle do câncer. Como resultado, tornaram o Inca possuidor da única pós-graduação em oncologia avaliada com grau de excelência pela Capes.
A partir de 2006, por determinação do TCU, a parceria com a FAF vem sendo progressivamente descontinuada, comprometendo de forma importante os resultados alcançados. Já perdemos mais de 800 profissionais e temos um prazo até abril de 2015 para demitir os 583 restantes no contrato com a FAF. A perda de pessoal especializado sem a existência de mecanismos autônomos de reposição coloca a instituição em risco de perder sua capacidade operacional e de geração de resultados para o SUS. Não se recupera o estoque de saber acumulado nas instituições com a mera substituição de pessoas, especialmente nas profissões de saúde em que é necessário o desenvolvimento de um longo e laborioso processo de interação.
 O Inca não tem personalidade jurídica própria e depende de decisões do governo federal, que tem sistema rígido e lento de reposição de pessoal. Há um grande descompasso entre as necessidades dinâmicas da área de recursos humanos e as ações esporádicas e demoradas para suprir essas necessidades. Os concursos públicos não têm sido efetivos por não considerarem a necessidade em termos de números, das atividades a serem executadas e da experiência necessária. A direção geral do Inca é totalmente adepta do mecanismo do concurso público. No entanto, os concursos realizados em 1995, 2005 e 2009, que levaram à nomeação de mais de 1.500 concursados, não solucionaram o déficit de pessoal existente por não cumprirem o que foi anteriormente mencionado.
Inúmeras instituições de características similares às do Inca dispõem de estrutura que lhes permite, dentro da esfera pública, ter os mecanismos de gestão de que necessitamos. Basta lembrar o modelo do Sara Kubitschek e o da Embrapa.
Ao longo destes anos, realizamos inúmeros estudos com o acompanhamento dos ministérios da Saúde e do Planejamento, que, em tese, concordam com a necessidade das mudanças reclamadas pela instituição. No entanto, na prática não ocorreu encaminhamento concreto algum do assunto.
A nosso ver, o que mais faltou, até o momento, para resolver o problema é maior e mais aprofundado conhecimento dos desafios postos para o Inca e para o controle do câncer, além do enfrentamento de outros interesses envolvidos.

Luiz Antônio Santini é diretor-geral do Instituto Nacional do Câncer (Inca) 
Fonte: O Globo

segunda-feira, setembro 01, 2014

UMA PALAVRINHA SOBRE.

c-bernardo2012@bol.com.br
O parafraseado é uma possibilidade sempre ao alcance dos que escrevem para o publico – gosto dele. Winston Chuchill disse que “democracia e velhice por mais lamentáveis que sejam são melhores que suas alternativas”. Para a velhice a morte, para a democracia várias, entre elas o horário eleitoral.
Já Ulysses, o nosso, Guimarães disse em favor da democracia: “eu tenho ódio e nojo à ditadura.”
"A censura é a inimiga feroz da verdade. É o horror à inteligencia, à pesquisa, ao debate, ao diálogo. Decreta a revogação do dogma da falibilidade humana e proclama os proprietários da verdade."
Verissimo anda dizendo que “os atuais candidatos à Presidência da República são todos iguais perante o William Bonner.”
E nós, eleitores do nosso pobre Amapá, o que dizermos sobre o julgador eleitoral, o doutor Carlos Tork, que estreou no processo mandando fechar de uma sentença só dezesseis rádios e vários canais de televisão? O fez porque sabe bem julgar ou tem que obedecer?
A Constituição brasileira tem por princípios reitores: soberania, cidadania, dignidade humana, valores sociais, pluralismo político. Subjacente diz-nos a mesma Constituição: é livre a expressão da atividade intelectual, artística, cientifica e de comunicação, independentemente de censura ou licença.
Fez bem, portanto, o outro juiz julgador que revogou a medida e restabeleceu assim a boa reitoria constitucional, legal e cidadã, devolvendo ao ar os meios de comunicação censurados. Responda por seus atos e palavras os que agrediram a lei eleitoral, e não todos os funcionários das rádios e televisões atingidos pela caneta do doutor Tork.
Tão tá; vamos pedir aos nossos doutos doutores da lei que estejam com o povo no seguinte: democracia é melhor. Mesmo com o embaralhado processo politico partidário eleitoral setentrional, mesmo com o poder econômico desmandando e mandando, mesmo com o poder executivo escolhendo para o poder judiciário.           



terça-feira, julho 22, 2014

BRIGA DOS DEUSES

Aqui do outro lado do mundo não entendemos direito o por quê de israelenses e palestinos brigarem tanto, atirando misseis uns sobre os outros o dia todo. No fundo não são povos beligerantes, apenas intolerantes e incapazes de construírem mutuamente um tratado de paz. Falta entre eles a competição....

Aqui no Brasil dão-se muito bem um com o outro, ali mesmo na área comercial central de Macapá as lojas de uns são fronteiriças a de outros – não raro palestino manda trocar dinheiro para troco na loja de israelense, e vice versa. Não é difícil vê-los tagarelando um com o outro enquanto esperam fregueses.  

Dias atrás, enquanto se disputava a Copa do Mundo da Fifa, estiveram entre nós os iranianos. Trouxeram uma boa seleção de futebol e torcedores absolutamente entusiasmados com os seus jogadores. Deram um show de convivência com alemães, chilenos, argentinos, holandeses, belgas, franceses, americanos.... croatas, russos, italianos, brasileiros. Os iranianos dançaram, gritaram, brincaram, torceram nos estádios e nas ruas, se divertiram bastante. Depois os que vieram voltaram ao seu país e ficaram aqui os que são de lá, mas que encontraram no Brasil alguma razão para viverem.
Aliás, modéstia à parte, a Copa no Brasil foi realmente um palco onde brilharam igualmente todos os povos que aqui vieram. Não se tem noticia até agora desentendimento serio entre nacionalidades presentes em nosso país nesses belos dias de disputa da Copa do Mundo. No campo de futebol os jogadores competiram no peito e na raça, mas não deixaram um mínimo registro de socos e pontapés.
Pena que não estavam aqui as seleções israelense e palestina com suas torcidas organizadas, teria sido uma excelente oportunidade para unir ainda mais suas enormes colônias de imigrantes que vivem em todos os recantos do Brasil. Aliás, e a propósito bem que a ONU podia cuidar disso: criar aqui no Brasil um torneio de futebol a ser disputado de dois em dois anos entre mulçumanos e judeus. Através do esporte e do modo de vida brasileiro aos poucos conseguiríamos a paz entre esses povos.
A guerra não vale a pena para ninguém, a não ser para os deuses: quando eles brigam as pessoas morrem... inutilmente.

   

domingo, julho 20, 2014

‘A reforma política já chegou’, uma crônica de João Ubaldo Ribeiro



João Ubaldo Ribeiro (06/06/2011)


Suspeita-se na ilha que a propalada operação de safena a que se submeteu recentemente Zecamunista foi na verdade um implante criado pela diabólica medicina da União Soviética, que, quando não mata, como foi o caso de Zeca, injeta tamanha dose de energia no indivíduo que ele sozinho vale por todo um Politburo, coisa braba mesmo, do tempo do camarada Stalin Marvadeza e da NKVD. Não sei se os rumores procedem, mas de fato Zeca, exibindo a cicatriz do peito por trás de uma correntinha com uma foice e um martelo e umas contas de Xangô (quando uma vez eu perguntei a ele que mistura era essa, ele me deu um sorriso de desdém e respondeu apenas que não era materialista vulgar), está mais elétrico do que nunca. Na hora em que o peguei, ele ainda recebia abraços e apertos de mão pela palestra que acabara de fazer no bar de Espanha, esclarecendo a todos sobre o sistema político brasileiro. Infelizmente, perdi a palestra, mas ele, muito modestamente, me disse que não tinha sido nada de mais.
- Foi o bê-á-bá – disse ele. – Comecei pela questão da soberania.
- Ah, sim, a soberania popular. Todo poder emana do povo, etc., isso é muito bonito.
- Bonito pode até ser, mas não é verdade. Foi isso que eu disse a eles. Expliquei que soberania é o direito de fazer qualquer coisa sem dar satisfação a ninguém. E quem é que aqui tem o direito de fazer o que quiser, sem dar satisfação a ninguém, é o povo? Claro que não. É, por exemplo, o deputado, que se cobre de todos os tipos de privilégios e mordomias, se trata melhor do que o coronel Lindauro tratava as mucamas e, quando alguém reclama, ele manda esse alguém se catar, isso quando dá ousadia de responder, porque geralmente não dá. Todos eles fazem o que querem e não têm que prestar contas, a não ser lá entre eles mesmos, para ver se algum não está levando mais do que outro, nisso eles são muito conscienciosos. Fiz que nem Marx, botei a história de cabeça para baixo. Não foi o rei Luís XIV que disse que o Estado era ele? Pois aqui não, aqui o Estado é o governo, é grana demais para um rei só, tem que dar para todos os governantes, cada um com seu quinhão. O Estado são eles e é deles, tem que meter isso na cabeça e parar de pensar besteira. Antes de qualquer postura abestalhada, vamos encarar a realidade objetivamente, não tem nada de povo, povo não é nada, tem mais é que botar o povo pra comprar bagulho sem entrada e sem juros e cuidar do que interessa ao País.
- E o que é que interessa ao País?
- Ô inteligência rara, o que interessa ao País é o que interessa a eles. Que todos eles continuem se locupletando numa boa, não tem nada que mexer em time que está ganhando. Você viu isso muito claramente no caso do Palocci, não viu? Não se mexe em time que está ganhando.
- Que caso do Palocci, o caso do caseiro?
- Que caso do caseiro, cara, deixe de ser leso, o caso do caseiro já entrou para as piadas de salão do PT. Estou falando no caso do dinheiro que dizem que ele ganhou por cultivar bons contatos. Você viu, pegou mal, ficou aquele mal-estar e aí o que é que aconteceu? Exatamente isso que você vai dizer, mas deixe que eu digo. Aconteceu que era mais um trabalho para o Super-Lula! Eu vou ter que dar a mão à palmatória, o bicho não é inteligente, não, ele é um gênio, gênio. Você viu como, com dois beliscões aqui e três cascudos ali, ele enquadrou todo mundo e tudo entrou nos eixos? Mas, ainda mais que isso, muito mais que isso, ele fez a reforma política! Ele fez a reforma política e, como se diz nas operações policiais, sem disparar um único tiro!
- Pode me chamar de leso outra vez, porque não entendi que reforma.
- O bipresidencialismo! Dois presidentes, em lugar de um só! E isso sem precisar mudar nada na Constituição, já está aí, já está em operação, não é preciso alterar lei nenhuma, esse cara é um gênio mesmo. É por isso que ela faz tanta questão de ser chamada de presidenta, eles já deviam ter combinado isso desde o comecinho da campanha eleitoral. Presidente é ele, presidenta é ela. Governante é ele, governanta é ela. O entrosamento é perfeito. Ele não suporta trabalhar e aí o trabalho todo de despachar, ler, discutir, assinar etc., ela faz. Das jogadas políticas, dos discursos, das viagens e das mensagens na TV ele cuida. E de mandar sancionar ou vetar o que for necessário, claro. Fica perfeito, como com o casal que não briga pelo pão porque um só gosta do miolo e o outro da casca. Ele criou – e ainda por cima com os votos do otariado todo – o bipresidencialismo, que já veio com ele de fábrica, ele é um gênio!
- E você acha que isso vai funcionar mesmo?
- Já está funcionando. Trouxa será aquele que, querendo coisa graúda do governo, não vá falar com ele primeiro. E mais trouxa será quem o contrariar. Caso perfeito para quem acha que não se mexe em time que está ganhando. Não mudou nada, tudo continua na mesma, só que agora o presidente não apenas conta com uma supergovernanta para cuidar do trabalho chato, como continua mandando, e ainda com a vantagem de ter alguém para levar a culpa, se alguma coisa der errado, pois, como diziam os antigos, a vitória tem muitos pais, mas a derrota é órfã, quem mais sabe disso é ele.
- Zeca, você realmente está muito inspirado hoje. Esse bipresencialismo que você sacou está muito bem pensado, ele continua mandando mesmo e deixando isso bem claro. Mas eu me lembro de você dizendo, antes da eleição, que, se ela ganhasse, em pouco tempo nem mais o cumprimentaria.
- Bem, eu subestimei a governantabilidade dela. E, além disso, beija-mão não é bem um cumprimento.

terça-feira, julho 15, 2014

DISTANTES DA PAZ

c-bernardo2012@bol.com.br
Os habitantes de Israel e da Palestina parecem habituados às batalhas e às bombas, mas isso não importa nada depois das explosões. Sobram crianças e adultos mortos aos pedaços, horrorizando o resto mundo com imagens de prédios e até quarteirões inteiros no chão, e debaixo dos escombros centenas de pessoas, dezenas de cadáveres.
De vez em quando vem desse palco macabro imagens fantasticamente renovadoras da fé na vida e na perfeição que é a espécie humana, na medida em que crianças estão sendo resgatadas sob esses escombros depois de dias sem água e comida e com pouco oxigênio para respirar. No mais das vezes respirando um ar contaminado pelo processo de decomposição dos cadáveres em volta.
Dois dias atrás assistimos pela televisão o resgate de um bebe com poucos meses de vida, uma coisa emocionante que até faz a gente chorar quando finalmente salva a criança saúda o mundo chorando como se estivesse saindo da placenta materna.
Acho que o mundo inteiro se alegrou com isso, e desejou vida longa àquela criança.
Homens duros, marcados pela guerra, soldados alguns, aparecem no vídeo vasculhando ruínas até mesmo em busca de alguma fotografia que lhes fique como lembrança material da esposa e filhos mortos e sepultos sob aquelas montanhas de cimento e aço.
Essa guerra sem fim que travam Israel e Palestina tem que razoes irrefutáveis, que ponham de um lado e outro dois povos donos de países transformados em altar por causa da dor, e em templo por causa da fé no futuro.
Nunca soube nada sobre Israel ou Palestina, dos seus guerreiros, dos seus gênios, poetas, cientistas, desportistas, artistas de qualquer arte. Mas, sempre ouvi falar dessas e outras batalhas cheias de muitas renuncias e sacrifícios que nem sempre triunfam, mas que ao final purificam.
Olhando o Oriente Médio pelos olhos dessas guerras, mas com a suavidade do rosto do recém-nascido que encontrou o resgate depois de dias da tragédia, é possível descobrir na guerra povos parecidos com o oceano agitado que encanta e afronta e com um lago quieto que de repente deslumbra e transborda.
Porém, vendo agora aquela gente posta nas ruas a espera de outros misseis, ou por causa das consequências de tantos outros que já chegaram ao seu destino, admite-se que pais, filhos, parentes, amigos, israelense e palestino de alguma forma, pelos longos dias à frente não podem mesmo pensar em nada concretamente, não terão palavras bem ordenadas, ficarão vazios de sonhos, aparecerão na televisão para o resto mundo com o semblante opaco, sem auréola na fronte. Tudo uma pena, um desperdício de vidas preciosas.
Pode ser que não chegue a um sequer daqueles irmãos orientais, um par de sapatos, um mísero quilo de arroz frutos da solidariedade do povo brasileiro apenas porquê a Israel e Palestina estão  plantados onde nos parece terminar a terra, e o Brasil onde se acredita começar o céu. Tudo isso é possível, e, pode até não importar nada que o seja. Eles são guerreiros, as crianças são treinadas para a guerra, se acostumaram com a guerra e por isso, continuarão a guerra.
Mas, palestinos e israelenses saibam que os brasileiros conhecem bem o peso das tragédias humanas sociais e econômicas que se abatem sobre eles por causa de intolerância histórica entre si.
Contudo, temos solidariedade, fé no futuro, braços para o abraço  e um desejo incontido de que encontrem a paz,  conforto espiritual e consigam recapturar a alma de sob tantos escombros.
Outra vez aparece a sensibilidade poética de Fernando Pessoa: “...Tudo vale a pena se a alma não é pequena. Quem quer passar além do Bojador tem que passar além da dor...”.



segunda-feira, julho 14, 2014

A DOR É UM PEDIDO

c-bernardo2012@bol.com.br
Hospital é lugar triste, mas também de aprendizado muito intenso e inesquecível, embora nem todas as pessoas que passem por um deles tenham a devida sensibilidade para ler nas vidraças e ouvir das paredes a canção da verdade que vibra ali dentro sem parar. Não sou esse primor de sensibilidade, pessoa mais a favor dos outros que as demais, menos ainda alguém que tenha nas prateleiras a receita da santidade... nada disso, só fui ouvir a verdade dos hospitais quando a dor impôs o silencio suficiente aos meus ouvidos quase mortos.
A primeira verdade do meu hospital: o desejo profundo de sair dele. A segunda verdade: o medo de não sair dele. A terceira verdade: os anjos de Deus moram aí dentro. Quarta e mais assustadora dessas verdades: alguém ali gravemente internado está no inferno terrestre.
Quando me hospitalizei gravemente, e foi essa uma única vez, suportei dores infernais, pedi a Deus que me mantivesse ali apenas para aliviar meu sofrimento, e mergulhei em escuridão anestésica apenas com o rosto do meu filho Fernando gravado na mente – os outros filhos, os netos, a esposa, mãe, pai, irmãos, demais familiares e amigos emergiram também no escuro do meu sofrimento.
(quando naufrago no Canal Carapaporis – Costa Atlântica Norte Brasileira – também apenas o rosto do Fernando me socorreu nas aguas).
Pois bem, hospitalizado e conduzido a UTI conheci lá dentro o horror por que passava um conhecido ator de peças publicitárias que pedia aos gritos que terminassem com a sua vida. Embora meio morto meio vivo escutei aqueles gritos durante as setenta e duas horas que passei ali.
Quando transferido de volta a um apartamento hospitalar meu corpo estava enrijecido já por tantos dias sem alimento e sem defecação e por isso doía muito. Porém lucido compreendi de pronto que minha dor era infinitamente menor do que aquela que tirava do ator a capacidade de encenar um triunfal retorno à vida.
Daí em diante minha vida foi um incerto entrar e sair em hospital oncológico de sete em sete dias (consulta medica + quimioterapia) até que seis longos meses se esgotassem. Quando pude passei a frequentar o hospital em socorro de companheiros que quisessem nos receber em visita simples, além das minhas necessidades de paciente.  
Ontem, novamente hospitalizado, fiz companhia a uma mulher que transparecia sofrer o sofrimento dos sofrimentos. Gemia, chorava, gritava, pedia pelo amor de Deus que saísse daquele estado. O marido, homem calmo e atencioso, cobriu-a de carinho até que a dopassem., depois veio conversar comigo.
Primeiro perguntou o que me prostrava ali, depois disse que estava cansado, que sua mulher era diabética, amputada, cardíaca, dependente de três aplicações de hemodiálise por semana, hipertensa. Um de seus filhos, residente lá região oeste do Amapá também é diabético e já quase não tem mais visão alguma.
Senti um grande respeito por aquele homem, nem um milímetro de pena. Percebi que também ele consegue ler nas vidraças e ouvir das paredes a canção da verdade que vibra dentro dos hospitais. Quando nos despedimos disse-me a enorme generosidade daquele gigantesco pequenino homem: Deus vai lhe devolver a saúde.
Engasgado olhei dentro dos olhos dele, beijei-lhe a fronte, apertei bem forte suas mãos e saí.


segunda-feira, junho 30, 2014

A COPA SOFT POWER

 A Copa do Mundo de futebol realizada em qualquer lugar do mundo é sempre uma festa, mas a que está em andamento no Brasil é mais do que isso... é soft power.
A disputa no gramado é das mais renhidas, difíceis, equilibradas, aplaudidas, curtidas nas arquibancadas dos estádios e fora deles. É aí que está a “identidade” brasileira que, no geral, vai tornando esta a copa das copas. Mesmo para nós, brasileiros, acostumados a ver o estrangeiro chegar e tomar conta do país estamos nos surpreendendo com o jeito simples e confiante com que as centenas de milhares deles estão transformando o Brasil em suas casas, e os brasileiros em seus íntimos.
As ruas e as praças estão lotadas com essas pessoas, ás vezes mais eles que nós dando vida e ditando regras de comportamento para a ocupação dos espaços onde acham que devem exercitar suas vontades.
Nesse andamento das coisas estamos vendo prevalecer entre todos a tolerância, o respeito, o limite, sorrisos, abraços e até beijos. Mas tem também a provocação, o desafio, a disputa entre os torcedores antes e depois das partidas sempre disputadas até a ultima gota de suor. Dentro dos estádios não há separação de torcidas, é como dizemos por aqui: tudo junto e misturado.
Os americanos e os argentinos vieram em maioria e, no entanto, se misturam alegremente com iranianos e ingleses num entrelaçamento que a diplomacia não consegue proporcionar, nem entre diplomatas.    
Também no geral os visitantes de outros países estão achando o Brasil um “paraiso”, porque onde chegam o tratamento que recebem é o mesmo: gentil.
A seleção americana, por exemplo, já percorreu mais de 15 mil quilômetros dentro do Brasil para jogar as suas partidas. Milhares de torcedores americanos viajaram com ela, e sempre se maravilhando com coisas e povo que viram em Brasila, Manaus, Fortaleza e Salvador. Pelo esforço que fizeram – a seleção e os torcedores americanos – mereciam um jogo no Maracanã, no Rio de Janeiro.
Do geral para o especifico, caso a caso, é claro que muitos desses visitantes passaram por dificuldades aqui no Brasil enquanto acontecem os jogos da copa. Problemas com aeroportos, hotéis, restaurantes, pequenos roubos e assaltos, metrô, ônibus e dai em diante até questões mal resolvidas com namoradas e namorados.
Mas também isso deve ter parecido a eles coisa normal de ocorrer quando se está diante de multidões em quase estado de delírio coletivo. Possivelmente receberemos boa avaliação dessas pessoas, mesmo que assim agravadas nesse momento aqui no país.
O grande aparato de segurança montado pelo governo para proteger os eventos da copa da Fifa, também está protegendo de perto as pessoas que estão fazendo a copa ao vivo.  
Já próximos do fim das competições estamos imaginando que chegaremos ao final sem maiores problemas, e com aperto no coração veremos retornar aos seus países os amigos que vieram nos visitar e se divertir conosco.
O Brasil não é mesmo um país desenvolvido, uma superpotência, um exemplo de justiça social para com os brasileiros. Os visitantes inteligentes e bem informados que aqui vieram sabiam disso antes de vir. Tinham noticias de que as ruas do país estão ocupadas por cidadãos brasileiros protestando justamente contra isso......... mas contra isso. Contra os gringos não.

30-junho-2014.

quarta-feira, junho 25, 2014

ÁREAS QUILOMBOLAS NO AMAPÁ



c-bernardo2012@bol.com.br
No dia 19 de maio de 1999 publiquei o artigo Quilombolas no jornal Diário do Amapá, em cujo ultimo paragrafo dizia eu:
"Na semana do 13 de maio de 99 os jornais brasileiros afirmam a existência de cinco quilombos no Brasil: Rio das Rãs e Mangal, na Bahia , Janary dos Pretos e Frechal, no Maranhão, e Kalungus, em Goiás. Quando dei com os olhos na manchete de chamada do jornal cheguei a imaginar al...guma alusão ao Curiaú na matéria... mas que nada, mais uma vez".

Nota do Mural: Hoje o Amapá conta com mais de setenta áreas quilombolas... um pouco demais para se levar a serio.

Relação de Comunidades Quilombolas do Amapá
1. Abacate da Pedreira - 2. Ajudante - 3. Alegre da Pedreira - 4. Alto do Pirativa - 5. Ambé - 6. Areal do Matapi - 7. Ariri - 8. ASTRAMAD - 9. Aterro do Muriacá - 10. Breu – 11. Capoeira - 12. Carmo do Macacoari - 13. Casa Grande - 14. Cavalo - 15. Cinco Chagas - 16. Conceição do Aporema - 17. Conceição do Macacoari - 18. Conceição do Maracá - 19. Coração - 20. Cunani - 21. Curiau - 22. Curiau de Fora - 23. Curiau Mirim - 24. Curralinho - 25. Engenho do Matapi - 26. Igarapé das Armas - 27. Igarapé do Lago - 28. Ilha Redonda - 29. Irmandade São José - 30. Itaubal - 31. Lago de Fora - 32. Lagoa dos Índios - 33. LIRA - 34. Maruanum (Bacaba do) - 35. Maruanum (Carmo do) – 37. Maruanum (Conceição do) - 38. Maruanum (Fátima do) - 39. Maruanum (São João do) - 40. Maruanum (São José do) - 41. Maruanum (São Pedro do) - 42. Maruanum (São Pedro do Canivete do) - 43. Maruanum (São Raimundo) - 44. Maruanum (Santa Luzia do)
45. Maruanum (Santa Maria do) - 46. Maruanum (Simião do) - 47. Mata Fome - 48. Mata Fome (São José) - 49. Mazagão Novo - 50. Mazagão Velho - 51. Mel da Pedreira - 52. Nossa Senhora do Desterro - 53. Oiapoque - 54. Palha (Ferreira Gomes) - 55. Pedra Branca do Amapari - 56. Porto do Abacate - 57. Porto do Céu - 58. Porto Grande - 59. Ressaca da Pedreira - 60. Retiro da Pedreira - 61. Rosa - 62. Santo Antônio da Pedreira - 63. Santo Antônio do Matapi - 64. São Francisco do Ariri - 65. São João do Matapi - 66. São José do Matapi - 67. São Pedro dos Bois - 68. São Raimundo do Pirativa - 69. São Tiago do Matapi - 70. São Tomé do Aporema - 71. Tessalônica - 72. Torrão do Matapi.

terça-feira, junho 17, 2014

XINGAMENTO A DILMA

Clovis Rossi - Folha de Sao Paulo 
Quando Ronaldo disse estar “envergonhado” com os desacertos da organização da Copa, Dilma Rousseff reagiu à moda de Nelson Rodrigues: “Tenho certeza que nosso país fará a Copa das Copas. Tenho certeza da nossa capacidade, tenho certeza do que fizemos. Tenho orgulho das nossas realizações. Não temos por que nos envergonhar. Não temos complexo de vira-latas.”
Nesta quinta-feira, Dilma submeteu seu orgulho a teste na tribuna de honra do Itaquerão. Dali, assistiu à partida inaugural da Copa do Mundo. Dessa vez, tentou blindar-se no silêncio. Absteve-se de discursar. Não funcionou. Como queria a presidente, a torcida exorcizou o vira-latismo. Mas, desamarrando suas inibições, incorporou um pitbull.
Ao entoar o hino nacional, ao ovacionar os jogadores, a arquibancada tomou-se de um patriotismo inatural. Contudo, rosnou com agressividade inaudita ao dirigir-se a Dilma. Fez isso uma, duas, três, quatro vezes. Diferentemente do envelope de uma carta ou do e-mail, a vaia não tem nome e endereço. Pode soar inespecífica. Como no instante em que o serviço de som anunciou os nomes de Dilma e de Joseph Blatter.
Até aí, poder-se-ia alegar que o destinatário da hostilidade era o cacique da Fifa, não Dilma. A coreografia estimulava a versão. Blatter levantou-se. Dilma manteve-se sentada. O diabo é que o torcedor, salivando de raiva, tratou de dar nome aos bois. Foi assim no coro entoado nas pegadas da cerimônia de abertura da Copa.
“Ei, Dilma, vai tomar no c…'', rosnava um pedaço da multidão. “Ei, Fifa, vai tomar no c…”, gania outra ala. Quando Dilma foi exibida no telão do estádio vibrando com o segundo gol do Brasil, arrostou, solitariamente, uma segunda onda de xingamentos. Após a comemoração do terceiro gol, ela ouviu um derradeiro urro: ‘Ei, Dilma, etc…”
O que fizeram com Dilma Rousseff no Itaquerão foi indesculpável. Vamos e venhamos: ela não era nem culpada de estar ali. Com as vaias da Copa das Confederações ainda não cicatrizadas, Dilma teria ficado no Palácio da Alvorada se pudesse. Foi ao alçapão do Corinthians porque o protocolo a escalou.
Vaiar autoridade em estádio é parte do espetáculo. Numa arena futebolística, dizia o mesmo Nelson Rodrigues, vaia-se até minuto de silêncio. Porém, ao evoluir do apupo para o palavrão, a classe média presente ao Itaquerão exorbitou. Mais do que uma pose momentânea, o presidente da República é uma faixa. Xingá-la significa ofender a instituição.
Quando o xingamento é transmitido em rede mundial, adquire uma pungência hedionda. No limite, o que a torcida fez na tarde desta quinta-feira foi informar ao planeta que o Brasil está deixando de ter uma noção qualquer de civilidade.
Quando o fenômeno atinge uma platéia como a do Itaquerão, com grana para pagar os ingressos escorchantes da Fifa, a deterioração roça as fronteiras do paroxismo. Evaporam-se os últimos vestígios de institucionalidade.
A sociedade tem os seus abismos, que convém não mexer nem açular. Dilma não se deu conta disso. E vive a cutucar os demônios que o brasileiro traz enterrados na alma. Fez isso pela penúltima vez no pronunciamento levado ao ar na noite da véspera. Muita gente achava que ela merecia uma reprimenda sonora. Mas a humilhação do xingamento transpassou a figura da presidente, atingindo a própria Presidência.
Quem deseja impor a Dilma um castigo que vá além da vaia, tem à disposição um instrumento bem mais eficaz do que a língua. Basta acionar, no silêncio solitário da cabine de votação, o dedo indicador. O gesto é simples. Mas a pata de um pitbull não é capaz de executá-lo.





terça-feira, junho 03, 2014

AQUI NÃO É MEU LUGAR.

Cesar Bernardo de Souza - c-bernardo2012@bol.com.br

Rui Barbosa, em 1892, sobre a instituição do Supremo Tribunal Federal, invocara o verbo contido nas Eumênides de Ésquilo, a quando da criação do novo Tribunal para os cidadãos da Ática:
“Eu instituo este Tribunal venerando, severo, incorruptível, guarda vigilante desta terra através do sono de todos, e o anuncio aos cidadãos, para que assim seja de hoje pelo futuro adiante”.
Analogamente surgiu o Supremo Tribunal Federal brasileiro? Ou não?
Ainda em 1824, época da Constituição imperial, surgiu no Brasil o Supremo Tribunal de Justiça composto de juizes letrados, tirados das relações por suas antiguidades e após, condecorados com títulos de Conselheiros.
Proclamada a independência, manteve-se constitucionalmente esse Tribunal que a seguir, na fase republicana veio a se transformar no Supremo Tribunal Federal, em 1890. Sua missão precípua determinava-o proteger a liberdade, os bens e a vida dos cidadãos tanto quanto a ordem e a segurança social mediante a obrigação sagrada de jamais desviar-se da lei.
Acontecia naquela época que o Imperador tinha poderes ilimitados, ocorrendo que por seus atos ficasse ao STJ manifestar-se sobre o que a Majestade não se determinasse resolver. Provém daí, creio, a nefasta prática da interferência de um poder sobre o outro.
Foi quê, e talvez porque, em 1890, por Decreto, transformou-se o Supremo Tribunal de Justiça em Supremo Tribunal Federal – o mesmo decreto estruturou o Ministério Público. Saía-se do período imperial onde a Justiça não tinha expressão política e, aportava-se na República que atribuía ao STF, por extensão lógica ao Poder Judiciário, muito maior importancia que a de dirimir questões de ordem privada. Determinava-lhe guardar e proteger os direitos individuais da sanha, força e infrações derivadas de atos dos poderes Legislativo e Executivo, principalmente quando tais agredissem ou desconhecessem textos constitucionais.
Além disso, considerando que o STF também era casa revisionista de atos do Judiciário, como ainda é, tornou-se ele próprio, o Supremo, guardião das próprias instituições da República. A Constituição de 1988 manteve o STF, ampliou, reforçou bastante as funções do Ministério Público, com isso dando ao Brasil um “sistema” judiciário quase sem igual em todo o mundo. Os direitos do cidadão e a paz social, mais que nunca, se tornaram a finalidade do Direito no Brasil.
Ocorre hoje, feliz ou infelizmente que abarrotamos o Supremo Tribunal Federal com todo tipo de recursos extraordinários, muitos deles menores do que o recomendado pela seriedade, estimando-se que até março de 2014 existam cerca de 685.034 processos em tribunais estaduais e federais aguardando decisão do Supremo – os ditos processos sobrestados.
Apesar do conhecimento desses números, há brasileiros que ocupam seções do STF querendo saber se seus cachorrinhos de estimação podem ou não receber suas heranças, seus sobrenomes ou se podem ser enterrados com pompas e circunstâncias em cemitérios humanos.
Por mais estranho que possa parecer, a cada eleição forma-se fila para perguntar à mais alta Corte de Justiça do Brasil se os ministros juizes da mais alta Corte de Justiça Eleitoral do Brasil sabem julgar crimes eleitorais – parte do TSE é formada por ministros do STF.
Por incrível que possa parecer, cento e setenta e seis anos depois do surgimento do Supremo Tribunal de Justiça do Império, o Presidente da República, diferente do que fazia o Imperador daqueles tempos, nomeia amigos para ministros do STF, dispensando-os do quesito: notório saber.
O Dr. Joaquim Barbosa, Ministro Presidente do Supremo, desconfiou do, digamos “reforço” da bancada, jogou a toalha antecipando o pedido de sua aposentadoria.  Recusou-se a continuar na posição de “carneirinho preto olhando de cima o rebanho de carneirinhos brancos”. Perde, e muito, a democracia... logo veremos.
       


sábado, maio 31, 2014

SAUDADE DO JOÃO DE BARRO

A televisão está rodando um clip educativo sobre o joão de barro, peça que a cada vez que vejo faz-me lembrar dos anos mágicos vividos em minha cidade natal: Volta Grande.
O joão de barro é um pássaro da minha infância e adolescência, época em que os postes da iluminação pública da cidade eram de ferro (trilhos de linha férrea), encimados por cruzetas de madeira, sobre cuja pequena extensão o pássaro marrom construía  sua “casa”. Bandos de joão de barro “invadiram” a cidade dessa maneira porque a devastação atingia gravemente seu habitat natural, aí se estabelecendo as plantações, principalmente a pastagem.
Os pardais, bem depois, chegaram para expulsa-lo de seu ninho, mas não da cidade, não dos postes. As andorinhas eram outras que se aproveitavam desses ninhos tão bem feitos.
O joão-de-barro é um pássaro muito popular, mas que não chega aqui na Amazonia (sobe até o sul de Tocantins). Dele se diz que o macho pode encerrar uma fêmea infiel no ninho até que ela morra, que constrói seu ninho com a abertura na direção oposta do vento e da chuva, o que não tem comprovação. Diz-se até que ele é um pássaro religioso: não constrói ninho aos domingos e dias santos.
Lenda indígena diz que o joão-de-barro (Tiantiá) foi um guerreiro apaixonado pela jovem Kuairúi, mas que não puderam se casar porque Tiantiá nao sabia construir uma cabana. Por isso o pajé os transformou em pássaros que se ajudam na construção do ninho.
Ecologicamente o joão-de-barro prefere as áreas de vegetação esparsa ou campos abertos. Passa grande parte do tempo no solo, caminha pausadamente, alternado com curtas corridas. Caracteristicamente se alimenta de insetos e larvas, aranhas e outros artrópodes, e até pode ingerir semente que encontre pelo chão, quase nunca nas arvores.
São aves monogâmicas (um macho fiel a uma fêmea e vice versa), união duradoura. Cantam (rufus) juntos, brigam juntos por seu território, trabalham juntos na construção do ninho, em certa medida chocam juntos seus ovos.
Seu ninho tem o formato de um forno (furnarius), gosta de pregá-los em galhos baixos de árvores e troncos secos para nidificar, sempre escolhendo pontos de boa visibilidade do entorno. Em zona urbana, onde está perfeitamente adaptado, prefere postes elétricos, mas também, aproveitando beirais de edificações.
Uma outra curiosidade sobre essas aves é a que indica que elas constroem ninhos praticamente durante todo o ano, sem, contudo, que haja qualquer relação com período reprodutivo. Todavia esse trabalho guarda relação estreita com o regime de chuvas do local, e, da consequente disponibilidade de barro fresco, palha, esterco. Entre dois e dezoito dias a “casa” fica pronta. Depois é forrada com fibras vegetais, pelos, cerdas e penas. [.
A fêmea coloca de 3 a 4 ovos brancos, que serão incubados pelo casal após a postura do terceiro ovo, cuja eclosão dos filhotes se dará num prazo de 14 a dezoito dias. Assim que nascem os filhotes emitem silvos imitando a cobra como auto defesa. O casal os alimenta, com vinte dias de vida deixam o ninho.




quinta-feira, maio 22, 2014

O QUE FAZER?

A Prefeitura de Macapá atravessa um período e grandes dificuldades até mesmo para realizar pequenas tarefas. No contraponto estão munícipes que não colaboram com a cidade, sequer limpando seus terrenos. Chegamos então ao ponto de vermos animais de grande porte pastando em areas urbanas, e mesmo passeando em vias públicas de grande movimemto de veículos e pessoas. É pena!