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domingo, outubro 21, 2012

DOM PEDRO JOSÉ CONTI


O guru e o barbeiro
Dom Pedro José Conti
Da Equipe de Articulistas: 

Jornal Diário do Amapá/21-10-2012

Na religião hinduísta, os gurus são uma espécie de guias espirituais muito respeitados. Conta uma história que, certo dia, antes de visitar um famoso santuário da sua religião, um guru, bem macilento, entrou numa barbearia. Imediatamente o barbeiro, que estava tirando a barba de um homem gordo e flórido, largou o cliente que estava atendendo e, com toda atenção e deferência, fez um serviço completo e caprichado para o guru. Depois disso, ainda lhe deu algumas moedas pedindo que rezasse por ele e sua família.
O guru, agradecido, decidiu em seu coração que recompensaria o barbeiro, tão atencioso, com as esmolas que ia recolher naquele dia. Depois de algumas horas, um desconhecido aproximou-se do guru e lhe deu um saquinho cheio de moedas de ouro. O guru, conforme tinha prometido em seu coração, correu com o barbeiro e lhe ofereceu o pequeno tesouro. No entanto o barbeiro mostrou-se ofendido e disse:

- O que é isso? O senhor, que deveria ser um santo, não se envergonha de querer me pagar um serviço que fiz por amor a Deus?

Um exemplo de generosidade do barbeiro e de desprendimento por parte de ambos, visto que nenhum dos dois deu muito valor às moedas de ouro. Com efeito, um trabalho, para ser serviço verdadeiro, deve andar junto com a gratuidade e a disponibilidade. Se for pago, já se torna negócio; se for mal feito, revela má vontade por parte de quem o oferece.

No entanto, no evangelho deste domingo, Jesus nos ensina que o serviço generoso e gratuito deve estar também junto com o poder e a autoridade. Se os grandes do mundo oprimem e tiranizam as nações, entre os discípulos de Jesus não pode ser assim. As coisas devem ser muito diferentes. Quem quer ser o primeiro seja-o no serviço, tornando-se servo de todos.

Em geral, ter poder é sinônimo de mandar e, para quem não o tem, significa submissão e obediência. Esta maneira de pensar está tão enraizada em nós que é muito difícil imaginar uma autoridade que não possa mandar. Afinal, se ele não pode impor a sua vontade, que poderoso é?

Jesus sempre nos desafia porque nos propõe algo de verdadeiramente novo, muito diferente da maneira de pensar e de agir dos grandes e poderosos do mundo, que se acham donos de tudo. O que está em questão não é a autoridade em si; sendo legítima e honesta ela deve existir e exercer a sua função. Jesus propõe que esta autoridade não se transforme em autoritarismo. Ele pede que seja um serviço para o bem de todos, de maneira especial para os pobres e os excluídos das benesses da sociedade. Ocupar um cargo de responsabilidade não deve ser entendido como um poder incondicional e, portanto, opressor, resultado de ambições e disputas onde vale tudo para conquistá-lo. Ao contrário do orgulho humano, que visa ocupar os primeiros lugares para sentir-se importante, admirado e bajulado, Jesus propõe o último lugar, o lugar daquele que, antes de pensar em si, serve a todos.

Perguntamo-nos: será possível ocupar fisicamente os primeiros lugares e agir, espiritualmente, como alguém que não promove a si mesmo, mas coloca em primeiro lugar na sua vida o bem dos outros? É muito difícil, mas nada é impossível para Deus. Por isso, Jesus pede que o seu projeto de serviço comece, ao menos, entre os seus discípulos.
Não tem como não lembrar, neste momento, também as autoridades na Igreja, começando pelos padres, passando pelos bispos, até o Papa, incluindo os superiores e superioras das famílias religiosas, leigos e leigas responsáveis de pastorais, movimentos e comunidades. Evidentemente sempre pode ter alguém que planeje, também em nossos dias, uma possível carreira eclesiástica, que seja um pastor ganancioso, centralizador e autoritário, alguém que busque a sua autopromoção. No entanto acredito que devemos reconhecer a generosidade e a dedicação da grande maioria das pessoas consagradas e comprometidas. Com efeito, não tem ouro que pague o amor e a dedicação de tantos irmãos e irmãs, integralmente devotados às suas comunidades, à suas paróquias, às obras da caridade.

Como o barbeiro que não quis receber recompensa por um serviço que havia feito por amor a Deus. O bem, feito por amor, é a própria recompensa para quem se entrega ao serviço sem reservas. E no amor vivido está presente o próprio Deus que, por sua vez, se doa sempre como prêmio incalculável.


Dom Pedro José Conti
Bispo de Macapá

sábado, outubro 20, 2012

DALTO MARTINS: SEIS MESES DEPOIS

Muitas vezes durante o dia de hoje olhei para o céu querendo ver desenhado contra ele a imagem do meu amigo Dr. Dalto Martins. Queria vê-lo voando muito alto, sequer me importando se em seu avião ou numa vassoura como o fazem as bruxas, ou plainando de asas abertas como os gaviões, ou mesmo parado, pregado no firmamento. Qualquer forma de me acenar de que ele se servisse seria suficiente, mas de forma alguma o vi ainda que eu mesmo o desenhasse com a maleabilidade das nuvens.
Não desisti, e nem poderia. Nunca o Dalto se negou a mim., portanto o veria ainda hoje.
Perto das 18 horas me dirigi à igreja para mais uma missa pelo descanso de sua alma... então o vi nitidamente por trás de uma cortina d'água. Soube imediatamente que minha mente e meu coração o recolocava, dessa vez, ao lado da grande cachoeira Santo Antonio do Rio Jari onde tantas vezes ele esteve para descansar a alma e os olhos. Dentro da igreja, durante a missa voltei a vê-lo um pouco mais atras da cortina d'água... pedi a Deus que realmente ele estivesse lá,,, em paz.
Se voce procurá-lo com a mesma ou maior intensidade com que meu coração o tem procurado 
provavelmente o encontrará sobre, sob ou atrás dessas águas. Deus o tenha!

quinta-feira, outubro 18, 2012

LIÇÕES DA CRISE



A crise de abastecimento de gasolina e álcool no Amapá não é novidade em lugar algum – deu na Globo, foi para o mundo. Há, no entanto, o risco de o recado embutido na crise não chegar, mais uma vez, aos ouvidos e circuitos de decisões das autoridades do setor. Únicas responsáveis pela crise.
                                                Esses carros estão a pelo menos um quilômetro do posto... 
que ainda receberá a gasolina.


Também não acrescenta nada discorrer aqui, alguém como eu, sobre o imenso prejuízo financeiro que a “crise da gasolina” está impondo à pequena economia regional. As tais autoridades do setor certamente sabem avaliar o quadro e sobre ele aplicar os dados e informações especificas que lhes chegam da área técnica.

Desnecessário jogar mais luz sobre o já tão esgarçado tecido social amapaense, bem próximo de rasgaduras por causa da impaciência e impotência Dante da crise. É tanto que outras autoridades do estado já determinaram proibição de venda desses combustíveis em vasilhames, ignorando o cenário sócio econômico regional que tem como moldura o maior rio do mundo e sobre os milhares de pequenas embarcações integradas ao sistema produtivo local que, de jeito nenhum, pode ir ao posto em terra encher o tanque. Postos flutuantes? Não tem e se tem também estão desabastecidos.  
Entretanto, há uma discussão bem maior  indissociável de tudo isso: a ambiental.
 
 O pressuposto para a solução prolongada desse problema no Amapá está na ampliação da capacidade de armazenamento de combustíveis.  Base existente ainda é da década de 1950/60, quando os atuais municípios de Santana, Porto Grande, Ferreira Gomes, Itaubal, Cutias, Pedra Branca e Serra do Navio eram Macapá. Uma grande Macapá com apenas 29 mil habitantes. –Ibge/Irda. Essa imensa Macapá foi crescendo: 55 mil habitantes em 1970; 93 mil em 1980; 154 mil em 1990; 280 mil em 2000. Mas o terminal de abastecimento sempre o mesmo. Chegamos agora, Macapá e Santana com mais de 500 mil habitantes com a mesma capacidade instalada de armazenamento.  É a causa da crise.

balsa_cruzeiro

É demorada uma obra de construção de novo terminal, mas terá que começar o quanto antes. Há bons terrenos, de boa localização e tamanho apropriados para isso? Pouquíssimos, mas é preciso ganhar tempo sobretudo no balcão da burocracia de licenciamento ambiental.

E por quê tanta pressa? Porque o acumulo de balsas petroleiras ancoradas na orla de Macapá/Santana é bomba que por dá cá aquele acaso pode explodir. Sabemos todos que não há disponibilidade técnica no Amapá para conter derramamentos ou controlar incêndio produzidos por milhões de litros de gasolina ou álcool.

Aliás, é ate um pouco assustador que fiscais das leis ambientais ainda não tenham ancorado a canoinha ao lado dessas gigantescas bombas, digo, balsas cheias de pólvora, digo, gasolina e álcool.
Vidas e biodiversidade agradeceriam essa fiscalização permanente e os cuidados emergenciais tecnicamente bem tomados... agora... já.
Seriam as primeiras boas lições da crise.