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quarta-feira, fevereiro 20, 2019

LUA CABEÇA DA TERRA.


Cesar Bernardo - 20/02/2019. 
Cada cabeça um mundo desconhecido a conhecer, quantos lá na China!? Até aprender mandarim.......mas que nada, aparecer com o que estava oculto, mostrar-se, revelar-se, são funções da palavra. Difícil calar-se ao papel em branco com tantos jornais falando da Lava Jato, de um ex presidente quase em fuga e de mais e mais gente delatando. É ler.
Quanto a escrever, elejo a lua - não a dos namorados – mas a cabeça da terra, essa sem a qual os dias e as noites não durariam mais que uma ou duas horas. Titânicos esses mundos em que a atração magnética de um pelo outro explica a pachorra com que giramos no espaço – vinte e quatro horas, trezentos e sessenta e cinco dias. Pouco ou muito?
Sempre olhei para a lua, perguntei milhões de vezes o que ela fazia ali que não fosse pela luz noturna, que não fosse pelos namorados, que não fosse pelos poetas ... agora sei, mas não foi ela a responder.
Antes, alheia ao que me doía, a lua criou em mim a ansiedade que me afasta do mundo real – aliás, ansiedade e dor são o meu particular vale das sombras. Aí praticamente não raciocino, pois é quando mais com a insistência. Shakespeare em Hamlet disse: “Sonhar, aí está o obstáculo”. Disse-o melhor o nosso Mario Quintana: “Sonhar é acordar-se para dentro”.
Mas não são apenas ansiedade e dor os ícones penosos da minha existência – sou um mundo. Aliás, cada cabeça é um mundo. Agora mesmo ando no mundo dos poetas, especialmente esses virtuais que me oferecem seus poemas ou me lembram letras de poetas imortais. Já disse que durmo pouco, tenho horas e silencio infindos ao meu dispor, em mesma medida que poemas desses meus amigos entram sem parar na tela do facebook. Vou com eles noite adentro, afinal, segundo Jean Cocteau, “poemas são ânforas cheias de silencio”.
Uma cabeça um mundo, logo não há poema ruim. O que há neles que não sejam fragmentos de um mundo que não conhecemos inteiramente? Ou, de outra forma, o que há nesses mundos expressos em poema que não deva propagar-se até a franja pioneira dos outros mundos? Afinal, somos mais de seis bilhões de cabeças.
Houve um tempo, aqui mesmo no Brasil, em que uma criação poética saída da cabeça do compositor Noel Rosa lá no Rio de Janeiro só chegaria aqui em Macapá vinte, trinta dias depois. Três dias para jornais de São Paulo chegar ao Rio, mais dias para os do Rio de Janeiro alcançar Belo Horizonte. Agora põe-se a virgula e já do outro lado do mundo tem alguém ansioso para ver onde no texto cairá o ponto parágrafo.
Não se deve perder esse tempo de ler e escrever tudo, especialmente os que como eu trocaram a luz da lua pela luz da tela do computador – é no face book onde agora habitam meus santos e dragões lunares.
Os tempos estão adversos para poetas e escritores, pois que no atacado, as pessoas não gostam de ler. Mas, alvíssaras! Criam-se assim letras e mais letras nas redes sociais, onde está a incrível velocidade com que se dá a comunicação.
Viva o varejo dos que fazem com gosto uso das letras construindo palavras: cada cabeça um mundo desconhecido a conhecer, mostrar o que estava oculto, mostrar-se, revelar-se.
Letras e palavras contam a história do mundo, revelam segredos da humanidade.       




domingo, fevereiro 10, 2019

O MORRO AGONIZA .... E MORRE

Vivi muitos anos na casa dos meus pais, em Volta Grande, e depois um tempo no Rio de Janeiro. Da minha cidade quase posso dizer que sei tudo sobre seus cenários naturais. Quanto ao Rio pouco ou nada posso dizer porque fui, vi e não pude compreender.
A realidade natural desses dois endereços colocava algo em comum dentro dos meus olhos: os morros urbanos – mais evidentes os do Rio de Janeiro.
Sempre gostei de ler, de estudar e de polemizar – sou um boquirroto. Mas também escrever sempre foi uma válvula de escape para as minhas angustias, duvidas e contentamentos.
O que muito me angustia até hoje no campo dos eventos naturais é o vento, a ventania, o vendaval. Faz-me medroso de tudo e ainda sem resposta para a indagação que um dia me fora feita: o que é o nada?
Andei atoa na vida anos a fio, portanto com tempo para refletir sobre medos e interesses., é dizer: nunca me faltou janela.
E das janelas da casa dos meus pais e depois em outras no Rio de Janeiro via a enxurrada morros abaixo nos dias de chuvas pesadas, vagarosas, longas. Nunca pude evitar a visão de futuro trágica e dolorosa a partir de casebres pendurados nas encostas dos morros e, mais grave ainda, para casebres, casas, prédios e palácios ao sopé desses morros.
Depois o destino me plantou aqui na planura infinda de Macapá – nenhum morro para remédio. O mesmo destino botou a televisão em funcionamento aqui justamente quando eu chegava. E ela, a televisão, reintroduziu em meus olhos essa perigosa realidade: morros – enxurradas – moradias.
Salvo engano, em 2011, na região serrana do estado do Rio de Janeiro, enxurrada, terra e pedras morro abaixo deixaram na lapide mais de seiscentas pessoas - 284 mortos em Nova Friburgo, 267 em Teresópolis, 56 em Petrópolis, 19 em Sumidouro, e 2 em São José do Vale do Rio Preto. Ainda nesse período a televisão começou a mostrar bandidos portando granadas nas ruas de favelas no Rio de Janeiro.
O futuro tinha chegado para confirmar o que eu “via” no passado quando me fixava nesse quadro hoje em movimento. De qualquer janela que se olhe (televisão, internet, ao vivo, mídia em geral), pós cortina d’água, o que se vê? Terra – barro – lixo – paredes – moveis – imóveis – animais – pessoas – carros – arvores – pedregulhos – pedras – rochas inteiras – roupas – documentos ---despencando, voando nos ares.
Depois de tudo vêm as autoridades, os compromissos, os operadores de justiça, cestas básicas, colchões, lonas plásticas, barracas, brinquedos para as crianças. A seguir, o silencio.
É durante o silencio que chega claramente às pessoas atingidas o barulho dos morros e barrancos ruindo, de pedras rolando, de paredes soterrando, de gente gritando, de crianças chorando, de vento ventando, de arvores quebrando-se, de água encachoeirando-se, de desespero ardendo e sufocando almas. Toda resposta no pós desastre é dor, lamentos, lagrimas, desolação.
 O morro, vê-se depois dos sinistros, agoniza, morre, ninguém socorre, o resto suspira derradeiro. O que de pior tem por acontecer está nas mãos da bandidagem, a que domina o topo dos morros densamente habitados: chegará o tempo em que suas granadas vão fazer rolar morro abaixo as imensas rochas soltas ali existentes, cênicas, parecendo solitárias.


sexta-feira, novembro 02, 2018

PRESTENÇÃO SR. MORO.


Cesar Bernardo - 11/2018

Temporariamente Sergio Moro, Juiz Federal, tinha deixado de ser o que é: a única celebridade nacional. Açambarcou-lhe essa condição o Sr. Bolsonaro enquanto disputava a eleição presidencial. As promessas que fazia outro candidato à Presidência da República do Brasil em convidá-lo a fazer parte de sua equipe de governo quase nada comunicou porque a candidatura não empolgava.
Terminada a eleição presidencial viu-se o Brasil ameaçado de solidão, do vazio que o mergulharia novamente na vulgaridade em que anda mergulhado., mas que nada....habemos Moro!
Eleito Presidente da República a se empossar logo ali em janeiro, Bolsonaro convoca novamente o celebre juiz e sobre ele faz incidir toda luz possível – convida-o publicamente para ocupar a nova pasta da Justiça no governo que se prenuncia interessante a cada dia ou a cada comunicação que faz em rede social o Sr. Bolsonaro, presidente eleito.
Ontem Moro foi de Curitiba ao Rio de Janeiro dizer ao presidente o que lhe convinha dizer. Digamos que que tenha titubeado querendo dar ao convite algum tipo de negativa e que tenha sido necessário ao presidente chamar-lhe às falas:
-Moro: "Presidente é difícil a mim deixar a magistratura após 22 anos de exercício para recomeçar num cargo honroso, admito, mas seu, não meu".
-Bolsonaro: "Prestenção!, prestenção V. Sa. Juiz Federal Sergio Fernando Moro.  Não há que se falar em deixar a magistratura, explico por quê.
Ficando comigo agora o senhor terá  apoio total para ser o melhor ministro da Justiça brasileiro de todos os tempos. Em o sendo, o senhor vai ajudar que seja meu governo um dos melhores de todos os tempos. Em sendo, com o serei, o magistrado da nação, ao tempo e ao cabo o senhor voltará à magistratura como Ministro do Supremo Tribunal Federal bem ali adiante já que será preciso substituir o ministro Celso de Melo por aposentadoria compulsória.
É um caso. Outro é que não sou adepto da reeleição e o senhor poderá, caso queira, ser o próximo presidente a depender de mim. Prestenção!!!".
Ao que Moro, sem delongas, disse a Sua Exa. Messias Bolsonaro, Presidente da República Federativa do Brasil:
-Aqui estou!.

   


terça-feira, agosto 28, 2018

JOÃO DA MARIA...DO JOÃO

Não lidamos com nomes reais das pessoas mergulhadas no mundo do câncer quando abrimos espaço para terceiros, razão pela qual vou lhes falar da “Maria”. Tenho muita sensibilidade e até inveja do homem que morre de amor pela esposa – na tristeza e na alegria; na riqueza e na pobreza; e, especialmente na dor. Assim é “João” esposo da Maria que faz tratamento de câncer juntamente comigo.
Um dia, quando conheci Maria, vi um quadro humano dilacerador e também bonito. Maria parecia à morte, muito magra, sem cabelos, olhos sem luz, parados. Estava quase inanimada sobre a cama/maca, parecendo já habitar um outro mundo. Para ela a dura realidade daquela sala de quimioterapia parecia não importar mais. João era a mais acabada expressão da dor – era em João que Maria doía. Era muito mais novo do que eu esse João; trinta anos atrás jogávamos futebol juntos: de salão (hoje futsal) quase todos os dias ainda no fim da madrugada e o futebol de campo nos fins de semana. João era craque.
Mas o João na cabeceira do leito de enfermidade de sua amada esposa Maria se apresentava de rosto e cabeça cobertos por espessas camadas de cabelos totalmente brancos. Era o João pleno de dor e tristeza, porém apaixonado da sola dos pés a esses cabelos brancos:
-Essa mulher mesmo doente é muito bonita., se ela morre aí, morro aqui - disse.
Maria estava mal, o corpo médico e paramédico da clinica se movimentava, uma decisão urgente e praticamente única estava para ser tomada.
Eu chorava diante do quadro ali composto por Maria e João, algo do tipo O Retrato de Maria, de Ivon Curi (Acabou-se o dia, acabou-se a noite... Mais uma noite sem Maria. Maria... ahã. Ela é meu amor...agora, é só essa fotografia. Mas fotografia não fala! Fala? Escuta, Maria).
João foi chamado para ouvir os médicos longe dos ouvidos de Maria, concomitantemente abriu-se as duas folhas da porta de vidro, por ali fizeram passar a cama/maca de Maria em direção ao longo corredor, no fim do qual, lá fora, já estava uma ambulância e seu respectivo corpo médico e paramédico próprios para ocasiões urgentes como aquela.
Lá na saída, depois de ver sua Maria embarcada naquele veiculo de dor e esperança, João pareceu me procurar com os olhos, e foi-se.
Maria, naquele mesmo dia, ganhou o aeroporto em busca de radioterapia inexistente no Amapá. Durante meses, quase um ano, nada soube da evolução do quadro clinico de Maria. Falávamos João e eu via redes sociais, mas fechado em si mesmo esse João agora tão mais sofrido não mencionava mais sua linda Maria.
Hoje, 28 de agosto de 2018, estou novamente no mesmo lugar recebendo a 22ª sessão de quimioterapia dessa série prognosticada inicialmente para se concluir com vinte e quatro sessões.
Deus está em todos os lugares e em todas as pessoas, mas se mostra mais visível em nós: cancerosos. Não é que a Maria do João e eu nos vimos juntos outra vez na mesma clinica?
Demorei um pouco para reconhecê-la, porque bela, cor da pele restabelecida, cabelos diferentes e muitos, olhos cheios de nova vida, sorriso nos lábios e muita força nos braços que me envolveram demoradamente num abraço inesquecível.
Deixei dois beijos em suas faces: um pelo João que a ama Maria e não pode viver sem ela; outro pela vida retomada pulsando vigorosamente em suas artérias.  
Vida longa Maria., Deus quer assim.

   


quinta-feira, agosto 23, 2018

ASAS PARTIDAS


Cesar Bernardo

Agosto/2018



Eu, de vez em quando, passarinho, preciso dizer:
Esses tratos que me dão são esmola.
Não sou feliz nessa ou noutra gaiola.
Eu lhe imaginando tão longe e você dentro de mim. 
Se amanhece (amanheço), o sol nasce para mim.
Se anoitece (anoiteço), lua e estrelas brilham e piscam para mim.
Se a madrugada silencia (silencio-me), somos a solidão.
Se vem novo amanhecer, talvez eu, passarinho, possa voar..



quinta-feira, junho 07, 2018

A REVOLUÇÃO DOS MUSEUS ...


O Amapá está mudando para melhor, a população cresce rapidamente, os fatos tomam grandes espaços na imprensa local de forma até surpreendente, como por exemplo, o sinistro que ocorreu lá no garimpo do Lourenço, tão lamentável quanto ao que está a ocorrer com os funcionários públicos, cotados agora para a dispensa do emprego determinada pelo Sr. Bresser nesses próximos três anos.

Mas o que importa dizer é que o Amapá segue em frente, muito embora de costas para a sua memória. Bom e bonito seria se pudéssemos hoje sair de casa para cumprir um roteiro cultural que ao final nos permitisse repassar em um dia toda a história do Amapá. Isso seria possível se tivéssemos aqui em Macapá museus, muitos museus, um ao lado do outro, enchendo um ou dois quarteirões e funcionando vinte e quatro horas por dia.  Se assim fosse, nos seria possível começar a viagem pelo Museu da Imagem e do Som, onde veríamos pedaços importantes da nossa historia e ouviríamos a fala dos nossos lideres celebrando acordos mediante os quais teria surgido o Amapá de hoje. Seria muito bom ver e ouvir o Sr. Janary Nunes “começando” o Amapá.    
Continuaríamos nossa viagem indo ao Museu do Homem para conhecermos a nossa historia antropológica: a passagem do homem por qualquer lugar é sempre marcada pelos hábitos e costumes, bons ou ruins.
Depois, uma passadinha pelo Museu do Garimpeiro para conhecermos a saga desses homens e mulheres que se embrenham pelos rios e matas buscando o ouro, plantando vilas, fazendo a vida acontecer nos recantos mais escondidos da nossa terra. A seguir, uma proveitosa chegadinha ao Museu do Seringueiro com o propósito de vermos, tocarmos e aprendermos com os nossos “chico mendes”.
Uma pausa para um lanche à base de iguarias regionais, na lanchonete bem ali entre o Museu do Índio e do Pescador, outras perolas da antropologia amapaense. Tudo sobre os índios e pescadores estaria lá, ao alcance dos estudantes, dos visitantes locais, dos turistas internacionais, dos próprios índios, principalmente os mais jovens, que teriam nos museus um importante referencial da sua cultura dos tempos idos, quase imemoriais.
Mais adiante, uns metros, estaria o Museu do Curiau mostrando através de suas peças colossais os dias ancestrais da gente africana dali, até hoje uma das mais importantes atrações culturais da nossa terra. Esse museu haveria de ser muito especial, com recepcionistas e cicerones saídos da própria vila, mostrando e falando orgulhosamente das coisas ficadas dos seus avós.
Bem ao lado encontraríamos o belíssimo Museu do Pescador, assim identificado: “Aqui, ao sair para pescar, enfrenta-se o rio-mar”.
E o Museu da Policia Militar? Uma lindeza, falando-nos da época da Guarda Territorial através das armas, fardas, medalhas, fotografias, documentos, lutas e mais lutas em favor da segurança do povo.
Que viagem, heim!? O dia já estaria quase findo e ainda nem teríamos chegado ao Museu de Arte, justo ele a exibir telas, esculturas, criações em barro e manganês, entalhes em madeira, os belíssimos adornos dos mestres-salas e porta-bandeiras das nossas escolas de samba e os destacados adereços que um dia enfeitaram a Avenida FAB nos memoráveis desfiles cívicos em 13 de setembro, alusivos à criação do Território Federal do Amapá.. Ao lado ou um pouco adiante teríamos o expressivo Museu de Artes Sacras....fantástico.
Teríamos ainda a visitar o Museu da Imprensa, o do Manganês, o de Historia Natural, o do Ribeirinho, o de Plantas Medicinais, o Histórico, o do Castanheiro, o do Vaqueiro, o do Madeira, o Naval, o da Construção Civil, o do Comercio, o Sacro, até o da Estrada de Ferro do Amapá teríamos.
Teríamos ou teremos, depende de sonharmos juntos e trabalharmos obstinadamente para tê-los. Quando os tivermos, trarei aqui o meu velho e analfabeto pai para fazê-lo conhecer em um ou dois dias a riquíssima historia (cultural) do Amapá. Papai ensinou que “tudo que é importante tem uma história interessante”.
Os órgãos de administração cultural do Estado e dos Municípios poderiam ou deveriam estar pensando nisso com alguma praticidade, porque é penoso ver o tempo consumindo as coisas e os fatos verdadeiramente importantes para nós, levando consigo a nossa melhor historia, alargando os frisos do ralo da insensibilidade governamental.
Abram-se os museus hoje, confiram o sentimento de autoestima e cidadania das pessoas logo a seguir: todos perceberemos que já perdemos um tempo precioso.         


Macapá, quarta feira – 29/12/1995.

segunda-feira, dezembro 25, 2017

PIORRA E PAPAI NOEL

À época da minha infância bem infante havia um brinquedo que nos encantava a todos....a piorra.
Eram lindas, de alumínio, estrategicamente coloridas de sorte que quando rodavam os traços coloridos criavam a impressão da infinitude – não havia moleque que resistisse a tanta beleza.
A cidade de Volta Grande, pequena ainda hoje, com menos de três mil moradores urbanos, era ínfima na época. A referencia de cidade grande próxima era Além Paraíba, só possível de visita por trem e por estrada carroçável. O ônibus da Viação Aparecida que uma vez ia e outra voltava num mesmo dia, a depender da época consumia quatro horas para vencer os intermináveis vinte quilômetros que as separam.  O trem era para as pessoas de melhor poder aquisitivo.
Na cidade apenas duas lojas faziam compras para o natal: A Venda Nova, do Senhor Sebastião Cassani, e a Casa Hissi, do Senhor José Hisse. Naquele natal apareceram na cidade as piorras, senhor Sebastião mandava pendura-las no forro da loja, em barbante, muitas, uma ao lado da outra – uma novidade irrestível. Na Casa Hissi também podíamos ve-las atrás do vidro do pomposo balcão muito comprido, em madeira de lei e visor de vidro, frontal e na mesa do balcão.
Acreditávamos no Papai Noel e não nos pais assumindo esse papel. Tínhamos que escrever ao bom velhinho, colocar o bilhete no sapato sob a cama ou leva-lo com bilhete e tudo para a janela. Para as crianças de aquela época o Papai Noel podia tudo, logo qualquer criança podia pedir-lhe o que quisesse.
Naquele natal, claro, pedi uma piorra, só dormi porque não podíamos ver  o Papai Noel chegar, entrar pela chaminé e colocar sobre o sapato o presente pedido.  Mas o meu Papai Noel não veio. Chorei, incomodei a mãe e ela explicava que o nosso presente eram pelejas novas, o verão logo terminaria, o inverno estava à porta. Mas quem éramos nós para entender a praticidade do “presente” de cama.
Ora, o desprovimento da cidade naquela época  dava origem a um dia seguinte típico: quase todos os meninos para os quais o Papai Noel entregava o presente ganhavam praticamente a mesma coisa: naquele ano, quando saímos à rua ali mesmo em frente de casa estava a meninada com suas piorras, algumas diferentes apenas no traçado do enfeite.
Mediante essa “provocação” só mais tarde, quando reiniciava o catecismo conseguia o nosso coração, nas explicações das catequistas, um abrandamento para o aborrecimento que o Papai Noel tinha nos causado. Depois cresci, quis o destino que viesse a estudar no colégio das freiras dominicanas, e delas e com elas desenvolvi a compreensão de começar meus natais primeiro na igreja, desde o inicio do período litúrgico do advento.
Depois da igreja, aí sim, a minha forra: boto um pouco de riqueza nos presentes, na ceia, na ornamentação, na caridade.